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Nô e Kyogen
O Nô é a arte teatral clássica do Japão, um drama
lírico que combina a música, a dança e a poesia. O Nô
adquiriu a sua forma definitiva no fim do século XIV, graças
ao trabalho de Kanami e seu filho Zeami, este último um
estudioso da estética inspirada no Zen. Pai e filho inovaram
o Sarugaku, uma antiga e popular forma de entretenimento,
introduzindo refinamentos estéticos e tornando esta arte
teatral a mais rica em simbolismos do mundo.
O repertório do Nô é formado de aproximadamente 240
peças, entre as quais um terço foi escrito por Kanami e
Zeami. O Nô cresceu como arte popular durante o período das
guerras interfeudais (séculos XV e XVI). Durante a Era Edo,
o Nô foi considerado pelo xogunato Tokugawa a cerimônia
artística oficial do Estado. Assim, o Nô recebeu proteção e
incentivos do governo tendo inclusive vários daimyo que o
estudavam e eram conhecidos atores.
A forma teatral alterna diálogos em prosa com
declamações poéticas cantadas por um coro. Todos os papéis
são representados por homens, mesmo os femininos.
O personagem principal de uma peça é denominado
shite, e o seu companheiro, tsure. O ator secundário é
chamado de waki, que às vezes também tem um companheiro
chamado de waki-zure. O shite é sempre um fantasma, um
espírito ou uma criatura fantástica; um ser sobrenatural. O
waki é um personagem que vive no presente e tem por função
trazer o shite e seu companheiro ao mundo da realidade.
O shite geralmente usa máscaras nas suas
interpretações. Já o seu companheiro, o tsure, utiliza-a
apenas quando o seu papel é de mulher. O waki e o seu
companheiro nunca usam esses objetos. A máscara utilizada
pelo shite tem a função de dar uma maior profundidade
emocional ao seu personagem, impossível de ser realizada
pelo rosto humano, ao mesmo tempo em que o destaca dos
outros atores.
O traje do shite é também o mais rico e lustroso,
sempre mais bonito do que o dos outros personagens. Essa
característica nunca é prejudicada a favor do realismo:
mesmo que o personagem principal seja um simples camponês, o
vestuário elegante não é alterado.
Um curioso ponto é que o Nô em muitos aspectos despreza o
realismo, utilizando-se de uma extrema sutileza nos
simbolismos. Por exemplo, em algumas peças em que o tsure
aparece antes do shite, então se usa uma criança para
interpretar o papel de companheiro do shite, de modo que a
sua presença não prejudique a atenção dirigida ao ator
principal. Isto acontece até mesmo quando a criança
representa o papel de um guerreiro, amante da personagem
feminina do shite. O ator infantil é conhecido por kokata e
nunca faz uso de máscaras.
Existe uma grande variedade de máscaras de Nô, que
podem ser divididas em máscaras masculinas, femininas e
demoníacas. Entre as máscaras de demônio estão algumas que
reproduzem rostos humanos, porém com uma expressão bastante
exagerada de alguma emoção.
O palco projeta-se para dentro da platéia, para que
se dê uma idéia de arte tridimensional que pode ser vista de
vários ângulos. O palco é coberto por um telhado de estilo
clássico, com a finalidade de recriar o ambiente original
que, no Japão feudal, era ao ar livre. O cenário é muito
simples e austero; a tela de fundo tem sempre a imagem de um
pinheiro estilizado, nunca mudando de uma peça a outra,
mesmo que a história se passe dentro de um palácio.
Nos fundos do palco encontram-se os músicos. Os
instrumentos tocados são uma flauta de bambu e três
tambores, de diferentes timbres e tamanhos. Todos eles são
indispensáveis na relação entre a canção, a música e a
dança, seja na harmonia da flauta, seja na marcação do ritmo
dos tambores.
À direita do palco está o coro, formado geralmente de oito
pessoas dispostas em duas fileiras, uma atrás da outra. O
papel dos músicos é criar uma atmosfera ideal à
representação e à dança, sem nunca sobrepujar a
interpretação dos atores.
Os trajes do Nô são extremamente formais e de tecido
abundante, de modo que os contornos naturais do corpo do
ator praticamente desaparecem. Dessa forma, as
características da roupagem, somadas ao emprego das
máscaras, tem por função apagar a individualidade do
intérprete, e aí está a essência e o princípio estético
dessa forma de arte. O sutil impacto do Nô está justamente
no talento artístico que surge das restrições severamente
formais que o caracterizam.
Kyogen
O Kyogen é um gênero teatral inseparável do Nô; tem
um caráter cômico e é apresentado entre os intervalos das
peças de um programa de Nô. O objetivo do Kyogen é
descontrair a tensão, provocar o riso e oferecer um
contraste ao drama.
Ao contrário do Nô, o Kyogen dá ênfase ao diálogo
falado e coloquial, e geralmente não há acompanhamento
musical. Também não existe personagem principal. Ao invés
disso, dois atores, ou grupos de atores, são lançados uns
contra os outros.
Um programa tradicional de Nô é composto de cinco
peças, intercaladas por três ou quatro peças de Kyogen.
Atualmente, contudo, é costume fazer programas de apenas
duas peças de Nô intercaladas por uma Kyogen, ou até mesmo
programas compostos exclusivamente de peças de Kyogen.
Todo programa de Nô apresenta o princípio do Jô-Há-Kyu,
independentemente do número de peças. Jô é a introdução, Há,
o trecho central, e Kyu, a conclusão.
A arte do Nô e do Kyogen foi passada durante séculos
de pai para filho. Existem, hoje em dia, cerca de 1500
profissionais que trabalham com essa forma teatral. Nesse
número incluem-se os atores, os professores e os músicos
especializados em acompanhar as representações. O Nô
firmou-se como forma de arte cristalizada assim como o
Kabuki. Embora não tão popular como este último, em sua
história de 600 anos o Nô ainda se mantém vivo no Japão e,
nesse aspecto, é único no teatro mundial.
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