Nascida e criada no interior do Rio de Janeiro, Livia Kodato construiu sua trajetória entre a música, a arte e a educação. Professora, cantora e artista multifacetada, ela chegou ao Japão em 2021 com uma bolsa de estudos e muitos planos, mas acabou enfrentando aqui um dos momentos mais desafiadores da sua vida.
Entre pausas forçadas, silêncios e retomadas, a música voltou a ocupar seu espaço, agora com ainda mais significado. Nesta entrevista, Livia fala sobre identidade, recomeços, a força da arte e o caminho que a levou a reencontrar sua voz em terras japonesas.

Portal Mie: Você nasceu e cresceu no interior do Rio de Janeiro e hoje vive em Ibaraki. Como foi esse deslocamento de vida e identidade, do Brasil para o Japão?
Livia Kodato: Eu não pensava em morar no Japão, mas surgiu a oportunidade de estudar aqui e eu vim. Foi difícil deixar o que eu tinha no Brasil, mesmo que temporariamente (a princípio), mas estava empolgada para viver algo novo. No Brasil, eu não me sentia tão brasileira; mas no Japão percebi com mais clareza minha parte brasileira. Essa vivência ampliou meu olhar sobre mim mesma e sobre as duas culturas.

Portal Mie: Sua trajetória passa por artes visuais, música, teatro, dança e educação. Em que momento você percebeu que a arte não seria apenas uma profissão, mas parte essencial de quem você é?
Livia Kodato: Na verdade, a arte sempre pareceu acontecer “por acaso” na minha vida: sempre me envolvi com a arte, mas sem grandes pretensões. Inclusive demorei a me enxergar como artista, como profissional.
Fiquei um tempo afastada da arte; tive depressão e crises de pânico e, em um momento de crises, senti a vontade de desenhar e ouvir música, o que ajudava a me acalmar e me reconectar comigo mesma. Ali eu percebi que estava afastada de algo que era essencial para mim.
Hoje vejo claramente a arte como parte de quem eu sou, algo que me constrói, transforma e que desejo compartilhar com outras pessoas.

Portal Mie: A música esteve presente na sua infância de forma muito afetiva, especialmente através do seu pai. Que memórias desse período ainda ecoam na sua relação com a música hoje?
Livia Kodato: Me vem um sentimento de alegria, liberdade, força, acolhimento. Quando criança, a música era um momento de brincadeira, de expressão, sem julgamentos, com pessoas que me amavam. Resgatar isso é um desafio ao trabalhar com música, pois a gente se cobra muito e às vezes acaba esquecendo disso tudo. Mas agora sinto que estou curtindo mais e tem sido maravilhoso.
Portal Mie: Você veio ao Japão com uma bolsa do MEXT para professores e, pouco depois, recebeu um diagnóstico de câncer de mama. Como foi atravessar esse momento tão delicado longe do Brasil?
Livia Kodato: Eu estava no Japão há 3 meses. Foi um misto de emoções: a sensação era de estar recebendo uma sentença de morte, mas também senti gratidão de ter vivido até aquele momento. Decidi ficar, pois eu queria viver a experiência que me propus a viver aqui: estudar, viver a cultura, conhecer pessoas. Eu tive o apoio da minha família, e de amigos que se tornaram minha família no Japão. Isso foi essencial, sou muito grata! Aprendi a pedir ajuda e a confiar nas pessoas. Foi um grande aprendizado.

Portal Mie: Durante esse período, você decidiu se afastar totalmente da música. O que motivou essa decisão e como foi lidar com esse silêncio artístico?
Livia Kodato: Eu vim para o Japão decidida a focar na experiência de estudar e conhecer o país, pois seria por 1 ano e meio. Cheguei no final da pandemia: no Brasil, estava longe dos palcos. Nem pensei na possibilidade de construir uma carreira aqui, pois ninguém me conhecia, eu não conhecia ninguém, não tinha energia para recomeçar. Mas esse silêncio me fez perceber o quanto eu sentia falta da arte. Fui voltando a me reconectar com a arte aos poucos, sem pretensões.
Portal Mie: Anos depois, você voltou a cantar no Japão de forma simples, com um violão, se oferecendo para tocar em eventos locais. O que esse recomeço te ensinou sobre coragem e vulnerabilidade?
Livia Kodato: Algumas pessoas me dizem que sou corajosa por viajar sozinha e “meter as caras”, mas eu nunca vi assim, porque não acho que seja algo grande (mas claro que fico feliz com essas palavras de apoio e reconhecimento das pessoas). Acho que foi mais uma decisão de não esperar ficar pronta para fazer algo, de aceitar minhas falhas e imperfeições, abraçar minha vulnerabilidade e ir com medo mesmo. Bem, talvez isso seja coragem né.

Portal Mie: A participação no Brazilian Day de Gunma, em 2025, parece ter marcado uma virada na sua trajetória aqui. O que mudou a partir daquele momento?
Livia Kodato: O Brazilian Day é o maior evento da comunidade brasileira no Japão. Foi uma grande oportunidade de mostrar meu trabalho. Criei conexões importantes, conheci músicos (até então eu não conhecia muita gente da comunidade ou da música), fiz boas amizades.
Não consegui me preparar como eu gostaria (pois estava passando por um momento pessoal difícil), mas tive um retorno muito positivo do público e da organização do evento. Isso me fez pensar que poderia haver espaço para mim aqui.

Portal Mie: Seu repertório passeia por muitos estilos, como pop, rock, MPB, bossa nova, jazz e samba. Como você constrói suas apresentações e escolhe o que cantar?
Livia Kodato: Cantei em bandas de diversos estilos no Brasil (gosto de explorar possibilidades). No Japão, procurei adaptar e escolher músicas que funcionassem com voz e violão, que eu conseguisse tocar (pop, rock). Ao mesmo tempo, soube do interesse do público japonês pela música brasileira, o que me levou a começar um projeto com bossa nova. Busco sempre músicas que eu goste de cantar e que possam criar uma conexão com o público.

Portal Mie: Hoje você atua como professora em várias áreas artísticas e também como cantora. O que a troca com seus alunos representa na sua vida pessoal e profissional?
Livia Kodato: Construir conexões de amizade e confiança, poder contribuir com o bem-estar e crescimento dos meus alunos é maravilhoso. É uma das minhas maiores motivações. Tenho um carinho muito grande por eles e pelas pessoas que encontro na vida, e acho que tudo isso transborda, transparece de alguma forma na minha vida pessoal e profissional.
Portal Mie: Depois de tudo o que você viveu nos últimos anos, que mensagem gostaria de deixar para outras pessoas que estão no Japão tentando recomeçar, especialmente através da arte?
Livia Kodato: Não vou romantizar porque viver da arte não é fácil e a realidade de cada um é diferente (as oportunidades, o financeiro, o emocional). E eu ainda estou apenas começando aqui. Mas algo fundamental é que eu não cheguei até aqui sozinha: foi graças ao apoio, às indicações, às conexões, às amizades. Sou muito grata! E procuro fazer o mesmo: compartilhar o trabalho dos colegas, indicar para shows, etc. A parceria é fundamental: juntos a gente vai mais longe.

Algo que tem me guiado: A vida é muito curta – ou muito longa – para viver como outras pessoas esperam que a gente viva. Não existe um manual de instruções pra vida; não tem um “caminho certo ou errado”. Procurar fazer o que faz sentido pra gente, sem precisar passar por cima de ninguém – ao contrário: compartilhando, unindo forças. A arte conecta, e isso é bonito demais.
Agradecimentos
Quero agradecer ao Clayton e ao Portal Mie por essa entrevista. Fico lisonjeada pelo reconhecimento do meu trabalho e pelo convite! Agradeço à minha família, amigos, professores, todas as pessoas que estiveram e ainda estão comigo nessa caminhada!
Contatos com Livia Kodato
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Instagram: Livia Kodato
Reportagem
Clayton Moraes – Fotógrafo & Colunista
Fotos – cedidas




