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Japão prepara regra para ‘preço de turista’: como isso pode afetar quem visita o país

Japão estuda cobrar mais de turistas em atrações e transporte; veja o que pode mudar

PM

Portal Mie Editorial

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Rua tradicional em Ise
Rua tradicional em Ise (Imagem Ilustrativa)

A discussão sobre a chamada “dupla precificação” voltou com força no Japão após uma polêmica em um restaurante de ramen em Osaka, onde um cliente estrangeiro pediu reembolso ao perceber diferença entre valores exibidos em menus em idiomas distintos. O caso ganhou repercussão nas redes e reacendeu um debate que já vinha crescendo no país: até que ponto é aceitável cobrar mais de turistas em nome do combate ao overtourism?

Segundo reportagem da FNN, o episódio ocorreu em uma popular loja de ramen da cidade de Osaka. O estabelecimento informou que o menu em idioma estrangeiro não era idêntico ao japonês: a versão voltada a turistas teria ingredientes e preparo diferentes, com preço em torno de 2.000 ienes, enquanto a opção em japonês custava cerca de 1.000 ienes. O dono afirmou que o cliente exigiu devolução da diferença após a refeição, e a situação só foi encerrada depois de ameaça de chamar a polícia.

O caso ganhou tração justamente porque toca em um nervo exposto do Japão atual. O país vive um boom de visitantes internacionais: a Agência de Turismo do Japão informou que o gasto de estrangeiros no país bateu recorde em 2025, alcançando cerca de 9,5 trilhões de ienes, enquanto o efeito econômico estimado chegou a aproximadamente 19 trilhões de ienes. O fluxo crescente de turistas ajudou a economia, mas também intensificou queixas sobre lotação em transporte público, pontos turísticos e áreas comerciais.

Nesse contexto, Quioto se tornou um dos principais símbolos do impasse. A cidade, historicamente pressionada pelo excesso de visitantes, avançou no debate sobre uma tarifa preferencial para moradores no sistema de ônibus. Em fevereiro, o governo municipal divulgou que realizou, em parceria com o Ministério da Terra, Infraestrutura, Transporte e Turismo, um teste para aplicar “preço prioritário” a residentes usando integração entre My Number Card e cartão de transporte.

A discussão ficou ainda mais concreta nos últimos dias, quando a imprensa japonesa voltou a destacar a proposta de diferenciar as tarifas de ônibus em Quioto entre moradores e não moradores. Reportagem da TBS/MBS informou que a ideia em debate prevê manter a tarifa dos cidadãos de Quioto em 200 ienes, enquanto visitantes e demais usuários poderiam pagar entre 350 e 400 ienes, como forma de aliviar a superlotação e priorizar quem depende do transporte no dia a dia.

Na prática, o debate está deixando de ser teórico. A cobrança diferenciada já aparece em iniciativas comerciais e em discussões sobre museus, transporte e atrações. Reportagem da FNN mostrou que, além do caso do restaurante em Osaka, há movimentações em instalações culturais e exemplos de estabelecimentos que tentam justificar preços distintos como forma de compensar custos extras ou de oferecer desconto a residentes e frequentadores locais.

O ponto mais sensível, porém, não é apenas o valor, mas a forma de aplicação. Especialistas ouvidos pela FNN afirmam que a transparência é decisiva para evitar conflito. Em vez de apresentar a medida como “cobrança maior para estrangeiros”, a orientação seria estruturar o sistema como “desconto para residentes” ou “preço preferencial para moradores”, com regras claras e prova objetiva de elegibilidade.

É justamente aí que mora a diferença entre política pública e percepção de discriminação. Quando o critério é residência, uso cotidiano do serviço ou contribuição local, a medida tende a ser defendida como mecanismo de justiça tarifária. Quando a distinção parece baseada apenas em idioma, aparência ou nacionalidade, a reação pública costuma ser imediata – dentro e fora do Japão.

Para brasileiros que vivem no Japão ou planejam visitar o país, a tendência é clara: o debate sobre “preço de turista” não deve desaparecer. Com o turismo em patamar recorde e cidades como Quioto buscando novas formas de proteger a rotina dos moradores, a cobrança diferenciada pode avançar em ônibus, atrações e serviços. O desafio do Japão será transformar essa política em algo administrável e transparente, sem ampliar a sensação de exclusão entre visitantes estrangeiros.

Fonte: MLIT