Algumas visitas nos apresentam prédios, obras e documentos. Outras nos apresentam histórias. A visita ao Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, foi uma dessas experiências raras em que a emoção se torna a principal guia do aprendizado.
Ao lado do embaixador Aldemo Garcia, tive a honra de ser recebida por Ricardo Ohtake, artista, designer e presidente do Instituto. Mais do que um anfitrião, Ricardo nos conduziu por uma viagem no tempo, compartilhando lembranças, fatos e sentimentos sobre a trajetória de sua mãe, a artista plástica Tomie Ohtake.
Uma conexão que vai além da arte
Durante a conversa, um detalhe chamou minha atenção de forma especial. Ricardo contou que nasceu na Mooca, tradicional bairro da Zona Leste de São Paulo. Como alguém que também carrega profundas raízes paulistanas, senti uma identificação imediata. Foi interessante perceber como a história de uma família que ajudou a construir parte da identidade cultural do Brasil também possui suas conexões com os bairros que formaram gerações de paulistanos.
A trajetória de uma artista que começou aos 40 anos
Com simplicidade e emoção, Ricardo relembrou a trajetória de Tomie Ohtake, que chegou ao Brasil vinda do Japão e iniciou sua carreira artística por volta dos 40 anos. Um começo tardio para muitos, mas que se transformaria em uma das mais extraordinárias histórias da arte brasileira.
Pinturas, gravuras e esculturas passaram a compor uma obra reconhecida dentro e fora do Brasil. Seu talento ultrapassou fronteiras e transformou Tomie Ohtake em um dos maiores nomes da arte contemporânea brasileira, deixando um legado que permanece vivo em museus, espaços públicos e na memória de admiradores ao redor do mundo.
O instituto que preserva um legado
Fundado em 2001 por Ricardo Ohtake e projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, o Instituto tornou-se um dos mais importantes centros culturais do país. No entanto, o que mais me marcou não foi apenas a grandiosidade da instituição, mas a forma como Ricardo preserva a história de sua mãe. Em cada relato, era possível perceber o orgulho, a admiração e o respeito por uma mulher que transformou a sensibilidade em arte e a arte em patrimônio cultural.
Muito além das exposições
Em determinado momento, Ricardo comentou que muitas pessoas iniciam suas trajetórias profissionais dentro do Instituto e, posteriormente, conquistam novas oportunidades em outros lugares. Ao falar sobre isso, demonstrou uma satisfação genuína, revelando que o legado do Instituto vai além da arte: ele também contribui para a formação de pessoas.
Uma inspiração que atravessa gerações
Saí daquela visita com a certeza de que conhecer a história de Tomie Ohtake através dos olhos de seu filho foi um privilégio. Mais do que ouvir sobre quadros, esculturas e exposições, ouvi sobre coragem, recomeços, dedicação e propósito.
E talvez essa seja a maior obra deixada por Tomie Ohtake: a inspiração e mostrar que nunca é tarde para começar e que a arte, quando nasce da alma, atravessa gerações.
Por Rosângela Lesnock



