A província de Ibaraki, conhecida como a “cozinha do Japão” por sua pujante agricultura, está no centro de um intenso debate ético: o governo local planeja implementar um sistema que paga 10 mil ienes por informações que levem à prisão de estrangeiros indocumentados.
A medida, porém, levanta alertas sobre o aumento da xenofobia e do preconceito sistêmico.
O dilema de Ibaraki: líder em estrangeiros indocumentados
A pressa do governador Kazuhiko Oigawa em implementar o sistema tem uma base estatística: em 2024, Ibaraki registrou o maior número de trabalhadores ilegais do Japão pelo terceiro ano consecutivo.
Dos mais de 14 mil casos nacionais, 3.452 ocorreram na província, sendo 70% deles concentrados no setor agrícola.
Vozes do conflito: ordem X discriminação
A proposta dividiu a Assembleia e a população local:
- O governo: o governador Oigawa defende que o alvo não são os indivíduos, mas as empresas que exploram o trabalho ilegal. “Não é um sistema para incentivar a discriminação”, afirma.
- A oposição: membros da Assembleia e especialistas, como a professora Eriko Suzuki, alertam para o perigo da “vigilância mútua”. Segundo Suzuki, é impossível julgar a legalidade de alguém pela aparência, o que fatalmente levará a denúncias baseadas em puro preconceito.
- O trabalhador legal: um vietnamita que trabalha legalmente em Hokota resume o sentimento de muitos: “É triste sermos todos vistos com suspeita. Pagamos nossos impostos, mas agora seremos ‘vigiados’ apenas por sermos estrangeiros.”
Impacto na agricultura
Enquanto produtores de espinafre em Hokota reconhecem que o trabalho ilegal é um problema real que precisa de regras, eles também admitem: a mão de obra estrangeira é o que sustenta as estufas da região diante da escassez de trabalhadores japoneses.
Para as cooperativas que aceitam estagiários técnicos, o sistema pode ajudar a combater “aliciadores” que cobram altas taxas para colocar imigrantes em empregos sem qualquer proteção social ou seguro.
Blindagem contra o anonimato?
Tentando conter as críticas, a Divisão de Política Trabalhista de Ibaraki esclareceu que o sistema terá travas: denúncias anônimas não serão aceitas e o foco será em identificar empresas infratoras, e não em perseguir indivíduos estrangeiros aleatoriamente nas ruas.
Fonte: JNN 


