Jovem e determinado, Lucas Aoyagui decidiu mudar o rumo da própria vida quando resolveu sair da fábrica para apostar em seus próprios projetos.
O que começou com a ideia de criar uma marca de roupas acabou abrindo caminho para a produção de eventos que hoje reúnem centenas de pessoas em Nagoya (Aichi).
Agora ele se prepara para um novo desafio com o Rinku Wave Global Festival, um evento que pretende reunir diferentes comunidades e nacionalidades no Japão que acontecerá no dia 18 de abril de 2026 (sábado) no Rinku Beach, na cidade de Tokoname, província de Aichi.

Portal Mie: Você saiu do Brasil ainda criança e veio morar no Japão com apenas 5 anos. Como foi crescer aqui e se adaptar à cultura japonesa desde pequeno?
Lucas Aoyagui: Eu vim do Brasil para o Japão quando tinha 5 anos. Quando eu era pequeno, muitas vezes era visto como estrangeiro, e algumas crianças me olhavam como se eu fosse diferente. Hoje eu entendo que muitas delas também eram apenas crianças e talvez não estivessem acostumadas a conviver com estrangeiros.
Mas naquela época eu passei por situações difíceis, como bullying e olhares diferentes, e lembro que foi bastante duro. Por causa dessas experiências, durante minha época de estudante acabei me tornando uma pessoa que se preocupava muito com o que os outros pensavam. Aos poucos, porém, fui aprendendo japonês e me adaptando à cultura japonesa.
Hoje, olhando para trás, sinto que ter crescido entre duas culturas, a brasileira e a japonesa, acabou se tornando uma grande força para mim. Os eventos que eu organizo hoje também nascem muito desse desejo de conectar culturas e pessoas além das fronteiras.

Portal Mie: Durante sua juventude você decidiu entrar na faculdade no Japão. Naquela época, quais eram seus sonhos e planos para o futuro?
Lucas Aoyagui: Desde cedo, por causa das experiências que tive, acabei me tornando uma pessoa muito comunicativa. Crescer entre duas culturas e conviver com línguas diferentes fez com que eu naturalmente desenvolvesse facilidade para conversar com as pessoas.
Foi aí que comecei a me interessar em aprender mais uma língua, o inglês. Eu tinha um grande sonho de trabalhar com idiomas e conectar pessoas através da comunicação. Um dos motivos disso foi ver meus pais enfrentarem dificuldades por não falarem japonês. Desde pequeno eu percebia o quanto a barreira da língua pode ser grande.
Por isso eu queria, de alguma forma, ajudar pessoas nessa situação. E também porque eu realmente gostava de me comunicar com as pessoas. Por esses motivos decidi entrar na faculdade no curso de Língua Inglesa.
Portal Mie: Em determinado momento da sua vida você tomou uma decisão importante: sair da fábrica para apostar em seus próprios projetos. Como surgiu essa decisão?
Lucas Aoyagui: Depois de entrar na faculdade, poucos meses depois eu sofri um acidente de trânsito. Eu tinha apenas 18 anos. Nesse acidente eu acabei me machucando e também contraí uma dívida muito grande. Além das mensalidades da faculdade, tive que lidar com custos relacionados ao acidente e até questões judiciais.
Eu não tinha seguro e, naquela situação, a responsabilidade acabou sendo maior do meu lado. Então, com apenas 18 anos, eu estava lidando ao mesmo tempo com a dívida da faculdade e com a dívida do acidente. Mesmo que eu continuasse estudando, todo o dinheiro que eu ganhasse trabalhando iria apenas para pagar dívidas. Foi então que decidi sair da faculdade.
Depois disso, como muitos brasileiros que vivem no Japão, comecei a trabalhar em fábrica. Era um trabalho estável, mas no fundo eu sentia que aquilo não era exatamente o que eu queria para a minha vida. Mesmo assim, sempre fui uma pessoa que tenta dar o máximo em qualquer ambiente. Eu trabalhava muito, fazia mais horas extras do que qualquer pessoa e cheguei a ser o que mais trabalhava no meu setor.

Enquanto isso, os eventos que eu organizava começavam aos poucos a crescer. Mas, naquela época, eu ainda não tinha coragem de largar o trabalho. Sinceramente, eu não tinha força mental suficiente para tomar aquela decisão. Foi então que uma pessoa muito importante na minha vida me incentivou.
Ele trabalha com venda de carros usados e eu o conheço desde pequeno. Para mim ele é como um tio. Ele falou comigo de forma muito direta: perguntou o que realmente estava me impedindo e disse que eu deveria tentar. Aquele momento me deu muita coragem. Foi por causa desse incentivo que consegui tomar a decisão de sair do trabalho. E até hoje sou extremamente grato por isso.
Portal Mie: Antes de entrar no mundo dos eventos, você também pensou em criar uma marca de roupas. De onde veio essa ideia?
Lucas Aoyagui: Quando eu estava na universidade, trabalhei como funcionário na Adidas Japan, no outlet de Nagashima. Foi ali que comecei a me interessar muito por moda. Percebi que roupa não é apenas algo que usamos. Roupa também é uma forma de expressão, uma maneira de mostrar personalidade.
Ao mesmo tempo, eu sentia que na sociedade japonesa às vezes é difícil expressar a própria individualidade. Eu mesmo cresci me preocupando muito com o olhar das outras pessoas.Então comecei a pensar que talvez uma marca de roupas pudesse ser uma forma de expressar individualidade e permitir que as pessoas mostrem quem realmente são. Foi assim que surgiu a ideia de criar uma marca.

Portal Mie: Como foi produzir seu primeiro evento?
Lucas Aoyagui: Conseguir realizar o primeiro evento foi extremamente difícil. Como eu não tinha nenhuma experiência ou histórico, nenhum lugar queria me dar espaço. Eu ligava para vários lugares todos os dias, mas sempre recebia respostas negativas. Mesmo assim eu não queria desistir.
Então comecei a ir pessoalmente aos lugares, mesmo sem marcar reunião. Foi assim que finalmente o clube MARKITH, em Nagoya, aceitou conversar comigo. Foi lá que consegui realizar o primeiro evento. Naquele momento eu realmente não sabia o que iria acontecer.
Era um risco muito grande, mas junto com amigos e com a equipe, conseguimos organizar tudo. No final, o primeiro evento acabou chamando bastante atenção e conseguimos criar uma vibe diferente das festas normais de clube. Foi assim que tudo começou a crescer.
Portal Mie: No começo, quais foram as maiores dificuldades para entrar nesse mercado?
Lucas Aoyagui: A maior dificuldade foi transformar o zero em um. Começar algo do nada é extremamente difícil. Até você provar que consegue, muitas pessoas criticam. Eu ouvi muitas coisas dizendo que aquilo não iria dar certo ou questionando o que eu estava tentando fazer.
No começo isso afetava muito o meu mental. Mas, aos poucos, aprendi a não me importar tanto com essas opiniões. Quando consegui desenvolver essa mentalidade, meu crescimento também acelerou muito. Hoje, olhando para trás, vejo que todas essas dificuldades foram importantes para formar quem eu sou hoje.

Portal Mie: Em que momento você percebeu que aquilo poderia se tornar um negócio de verdade?
Lucas Aoyagui: Foi quando a força da minha comunidade ficou clara. Uma vez tivemos que organizar um evento com apenas uma semana de antecedência. Normalmente isso seria muito difícil, mas mesmo assim muitas pessoas apareceram. Foi quando percebi a força da comunidade.
Outro exemplo são os eventos temáticos, como festas de pijama. Normalmente dizem que ninguém realmente entra no tema, mas nos nossos eventos as pessoas realmente participam e entram no clima. Quando vi isso, senti que havia algo muito especial na nossa comunidade. Foi ali que comecei a pensar em expandir isso para algo ainda maior, talvez para todo o Japão e até para o mundo.
Portal Mie: O que você aprendeu sendo promoter no Japão?
Lucas Aoyagui: A coisa mais importante que aprendi foi a importância das conexões humanas. Ser promoter não significa ser superior aos outros. A forma como você trata as pessoas e se comunica com elas constrói confiança.
Também aprendi que não devemos nos preocupar demais com os outros. Se você fica muito focado no que os outros fazem, acaba deixando de evoluir no próprio caminho. Por isso eu tento focar na minha comunidade e pensar sempre em como criar experiências melhores para as pessoas.

Portal Mie: O que faz um evento realmente dar certo?
Lucas Aoyagui: Eu acho que o mais importante é entender profundamente a comunidade. Mais do que pensar apenas no que as pessoas gostam, eu penso no que está faltando, no que elas estão sentindo falta. Também acredito que tudo funciona em ciclos. Coisas que existiam no passado e desapareceram podem voltar de uma nova forma.
Claro que inovação é importante, mas entender a psicologia das pessoas também é essencial. E, acima de tudo, é preciso ter determinação. Eventos são um negócio sério, com muitas pessoas envolvidas e assumindo riscos juntas.
Portal Mie: Agora você se prepara para um novo desafio com o Rinku Wave Global Festival. Como nasceu a ideia desse festival?
Lucas Aoyagui: Hoje organizamos eventos mensais em Nagoya, mas com o tempo percebi que os clubes têm limites de capacidade. O tamanho que eu queria alcançar estava começando a ficar limitado. Então pensei que talvez fosse hora de dar um próximo passo.
Em vez de procurar apenas um clube maior, comecei a pensar na possibilidade de criar um festival. No começo eu mesmo achei que talvez fosse impossível.
Mas a equipe da Neo-Fest me incentivou muito e disse que eu tinha potencial para fazer algo maior.
Aquilo despertou algo dentro de mim. Senti que esse era o próximo desafio. E foi assim que nasceu a ideia do Rinku Wave Global Festival.

Agradecimentos:
Nada disso foi construído sozinho, eu só cheguei até aqui por causa das pessoas ao meu redor e da comunidade que me apoia. Sem elas, tudo isso teria sido apenas imaginação, sou profundamente grato a todos.
Também quero agradecer especialmente aos meus pais, porque desde pequeno eu vi meus pais trabalhando duro e dando o máximo de si, e foi vendo o exemplo deles que aprendi a continuar lutando. Hoje eu sinto ainda mais o quanto os pais são incríveis. Sou extremamente grato por ter os pais que tenho.
E daqui para frente quero continuar crescendo junto com minha comunidade e seguir enfrentando novos desafios. Muito obrigado a todos vocês!
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Reportagem - Clayton Moraes – Fotógrafo & Colunista Fotos – cedidas



