Se você acompanha as notícias sobre a crise atual no Irã, já deve ter ouvido o presidente Trump mencionar o número “47” ou os “52 locais de ataque”. Não é coincidência. Existe uma ferida aberta na história americana que explica a postura “linha-dura” de hoje.
O estopim: 444 dias de humilhação
Tudo começou em 4 de novembro de 1979, durante a Revolução Islâmica.
Manifestações de pessoas insatisfeitas com a desigualdade econômica e outras questões levaram à derrubada da monarquia pró-americana Pahlavi, estabelecendo a República Islâmica do Irã com o aiatolá Khomeini como seu líder supremo.
Estudantes iranianos invadiram a Embaixada dos EUA em Teerã e fizeram 52 reféns americanos.
- Duração: o sequestro durou intermináveis 444 dias. Os reféns foram libertados em janeiro de 1981.
- O impacto: as imagens de diplomatas vendados rodaram o mundo 24h por dia, tornando-se a primeira grande crise transmitida “em tempo real”.
- Consequência política: o fracasso de uma operação de resgate (que matou 8 soldados) custou a reeleição do então presidente Jimmy Carter.
Por isso, é comum ouvir do presidente Donald Trump frases como: “Por 47 anos, o regime iraniano vem gritando ‘Morte à América'” e “Por 47 anos, o Irã tem sido o causador de problemas no Oriente Médio”.
Além disso, em janeiro de 2020, durante seu primeiro mandato, quando as tensões com o Irã aumentaram, o presidente Trump alertou que atacaria 52 locais dentro do Irã, igualando o número de reféns feitos no cerco à embaixada dos EUA em 1979.
A voz de quem viveu o pesadelo
A NHK ouviu Kevin Hermening, que na época era um jovem fuzileiro de 20 anos e um dos reféns. Ele relata o desespero de ter que queimar documentos sigilosos enquanto manifestantes escalavam os muros.
“Fomos vendados e algemados. Foi difícil ser mantido contra a vontade por tanto tempo”, diz Kevin, que hoje, aos 66 anos, apoia a pressão militar de Trump: “Não podemos tolerar a tirania do medo“.
Por que Trump usa isso hoje?
Para especialistas, Trump utiliza esse evento histórico por três motivos.
- Símbolo de força: ao ameaçar “52 locais” (o mesmo número de reféns de 1979), ele envia uma mensagem direta de vingança histórica e imagem de “durão”.
- Sentimento nacionalista: o trauma de 1979 plantou uma imagem profundamente negativa do regime iraniano na mente dos americanos.
- Narrativa política: ele reforça que, sob o comando dele, os EUA nunca mais serão “humilhados” como foram há 47 anos.
O que isso tem a ver com o Japão?
Quando Trump diz que o Irã está em “estado de colapso” (matéria anterior), ele está tentando encerrar um ciclo que começou naquela invasão de 1979.
Para a comunidade brasileira que trabalha nas fábricas e empresas japonesas, entender esse contexto geopolítico ajuda a perceber que o impasse atual não é apenas por causa de petróleo ou nafta, mas uma disputa de honra e poder que já dura quase meio século.
Fonte: NHK 


