Na tarde de domingo (26) o que deveria ser apenas o encerramento de um momento cultural transformou-se em um episódio de terror para o Embaixador Aldemo Garcia e a escritora Rosângela Lesnock.
Após participarem de uma exposição de cerâmica em Pinheiros, bairro nobre de São Paulo, eles aguardavam um carro por aplicativo na Rua Sebastião Velho, altura do número 185, esquina com a Rua Antônio Bicudo. Era plena luz do dia e não havia qualquer sinal de risco ou previsão do que estava por vir.
Em questão de segundos, três homens em três motocicletas, todos de capacete e com mochilas de entrega, cercaram o local.
A violência se impôs de forma imediata: uma arma foi apontada diretamente para a cabeça do embaixador. A ordem veio seca e agressiva: “Passa o celular. Fala a senha. Fala a senha agora.”
Sob pressão extrema, o esquecimento momentâneo da senha tornou-se uma possível sentença de morte. Diante da dificuldade de Aldemo em recordar o código, os criminosos ameaçaram: “Se não falar, a gente atira.”
Na sequência, a arma foi direcionada à cabeça de Rosângela Lesnock, intensificando a brutalidade: “Fala a senha, senão a gente mata ela.”
O episódio transcendeu o assalto, tornando-se um sequestro emocional onde a vida dos dois dependia unicamente da memória de uma senha. Após o primeiro aparelho ser entregue, a violência continuou com a exigência do segundo celular, novas senhas e ameaças de morte caso reagissem ou corressem.
Um dos criminosos realizou uma revista física no embaixador, subtraindo seu relógio, enquanto também levaram dinheiro de uma pequena bolsa de Rosângela. Tão rápido quanto chegaram, os homens desapareceram nas três motos, deixando para trás o som dos motores e uma profunda sensação de insegurança.
O que fica depois da violência
Para o casal, o choque ultrapassa o físico. Para Aldemo Garcia, que serviu como cônsul do Brasil no Japão por 5 anos, e Rosângela Lesnock, que morou 26 anos no Japão, enfrentar tamanha violência no solo brasileiro gera um impacto emocional e existencial.
Em um país reconhecido pelos baixos índices de criminalidade como o Japão, a realidade enfrentada em São Paulo levanta questionamentos inevitáveis sobre como cidadãos podem ter suas vidas negociadas por aparelhos celulares em plena luz do dia.
Um alerta necessário
Diante do ocorrido, o casal emite um aviso urgente a amigos, familiares e, especialmente, à comunidade brasileira no Japão: não atendam ligações ou mensagens de pedidos de dinheiro vindos dos números anteriormente utilizados por eles. Ambos os terminais foram cancelados e não estão mais sob controle das vítimas. O mesmo cuidado deve ser aplicado às redes sociais.
Agradecimento e reflexão
Aldemo e Rosângela registraram seu reconhecimento ao atendimento prestado pela Polícia Civil de São Paulo e ao suporte inicial da Polícia Militar.
No entanto, para além do suporte institucional, o casal reforça a reflexão de que a segurança pública não pode ser um privilégio, uma questão de sorte ou relativa ao bairro e horário; ela deve ser uma garantia fundamental.
Relatar o que viveram é, para eles, um ato de responsabilidade e uma forma de transformar a dor em alerta e o medo em consciência. O silêncio, neste contexto, não protege — apenas perpetua a violência.



