O governo do Japão iniciou uma avaliação sobre a possibilidade de classificar a China como uma “ameaça” na próxima revisão de seus três principais documentos de segurança, prevista para ser concluída até o final deste ano.
A medida ocorre em um momento de tensões elevadas, intensificadas após declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi sobre uma possível contingência em Taiwan, feitas em novembro do ano passado.
A eventual adoção de uma linguagem mais severa do que a utilizada na versão de dezembro de 2022 — que engloba a Estratégia de Segurança Nacional, a Estratégia de Defesa Nacional e o Programa de Fortalecimento da Defesa — pode agravar ainda mais as relações bilaterais.
Atualmente, o campo governista está dividido entre uma ala que defende uma postura rígida e outra que prefere cautela diplomática.
O debate sobre a terminologia de segurança
Antes da revisão de 2022, o Partido Liberal Democrata (LDP) propôs que as ações militares chinesas fossem rotuladas como uma “séria ameaça à segurança”.
Contudo, o Komeito, então parceiro de coalizão, opôs-se à medida, argumentando que o termo escalaria tensões desnecessárias. Na ocasião, foram adotadas expressões como “questão de séria preocupação” e “o maior desafio estratégico sem precedentes”.
A cautela foi motivada pelo cenário da época, quando a China reagiu à visita da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan, disparando nove mísseis balísticos, cinco dos quais caíram na Zona Econômica Exclusiva do Japão.
Naquele documento, o termo “ameaça” foi usado apenas de forma indireta, ao mencionar que o incidente foi “percebido como uma ameaça aos residentes locais”. Em contraste, a Coreia do Norte é explicitamente chamada de “ameaça grave e iminente“.
Desde 2022, a China expandiu suas capacidades militares e presença marítima, incluindo o envio simultâneo de dois porta-aviões perto da segunda cadeia de ilhas no Pacífico e o aumento de voos conjuntos com a Rússia.
A Comissão de Pesquisa sobre Segurança do PLD planeja discutir como tratar a perda de superioridade militar dos EUA e a parceria estratégica entre China e Rússia.
- “A mesma expressão não seria suficiente, pois a situação está pior do que antes”, afirmou um membro do PLD.
- Um ex-ministro das Relações Exteriores alertou: “Se escrevermos ‘ameaça’, a China reagirá com raiva. Precisamos ser criativos”.
A linha oficial do governo permanece focada em promover um “relacionamento mutuamente benéfico baseado em interesses estratégicos comuns“.
A primeira-ministra Sanae Takaichi reiterou que Tóquio está “aberta ao diálogo”.
Paralelamente, ela avança com políticas conservadoras, incluindo a recente revisão das diretrizes de exportação de equipamentos de defesa, permitindo a venda de armas letais, o que gerou forte preocupação em Pequim.
O PLD e o Partido da Inovação do Japão (PIJ) trabalham para identificar pontos de divergência e planejam submeter uma proposta ao governo até o início de junho.
“Não haverá benefício algum se escrevermos ‘ameaça”, comentou um oficial do governo. “O foco é como chegar a um acordo com o PIJ caso eles insistam em uma postura de linha dura“.
Fonte: JT



