Morando no Japão há muitos anos, Fernanda Ando, mais conhecida como Nanda do Nihongando, conquistou milhares de brasileiros ao ensinar japonês de uma forma leve, humana e próxima da realidade de quem vive no exterior.
Nesta entrevista ao Portal Mie, Nanda relembra os desafios da chegada ao Japão durante a crise de 2008, fala sobre maternidade, adaptação cultural, diferenças entre brasileiros e japoneses e conta como começou a ensinar japonês através de lives para mães brasileiras.
Entre histórias engraçadas, reflexões sinceras e experiências marcantes com seus alunos, ela mostra que o Nihongando vai muito além do idioma: é também um espaço de acolhimento, troca e conexão entre pessoas vivendo a experiência de construir uma vida no Japão.

Portal Mie: Como foi, sendo brasileira sem descendência japonesa, mergulhar na cultura e na língua do Japão?
Nanda: Realmente foi tudo muito novo porque eu não tinha nenhuma referência. Eu não tive uma batchan na minha infância, então eu cheguei mesmo ao Japão sem saber absolutamente nada de como funcionava, como eram as fábricas.
Eu ficava bastante impressionada com o número de brasileiros aqui e tudo era muita novidade. No início, como muitos de nós, foi muito difícil essa adaptação, ainda mais quando você chega pra trabalhar num lugar fechado, entra cedo pela manhã e só sai tarde da noite. Então tudo era muito novo.
A comida era novidade, o jeito das casas. Eu realmente não sabia o que esperar e naquela época não tinha influenciadores, não tinha vídeo no YouTube falando como seria. Então foi um mundo de novas descobertas.
Portal Mie: Que desafios você enfrentou no começo da adaptação?
Nanda: Acho que o maior desafio foi a questão do trabalho juntamente com não saber falar japonês. Porque eu cheguei na crise de 2008. Eu tinha ouvido falar que não precisava falar japonês pra trabalhar, que a língua japonesa nem precisava, né? E essa era uma das minhas preocupações também.
Como que eu vou morar num país se eu não sei falar a língua daquele país? Como vou me comunicar? E o que eu ouvia era: “Não, não precisa. Ninguém fala japonês aqui.” Só que quando eu cheguei, vi uma realidade diferente. Como estávamos na crise de 2008, o que eu mais ouvia quando ligava pras empreiteiras era: “Você sabe falar japonês?” E eu falava que não. Então eles respondiam: “Então não tem emprego.”
Acho que até pra quem sabia falar japonês estava difícil. Comecei a ficar desesperada porque eu tinha largado tudo no Brasil, vendido tudo pra estar aqui, e ouvi de empreiteira: “Por que você veio? É melhor voltar embora. Não tem trabalho.” Foi bem complicado.

Só depois de dois meses consegui trabalho num mercado brasileiro, ganhando bem pouco, mas foi o início de tudo. E o resto das adaptações foi acontecendo bem devagarzinho. A questão da comida, por exemplo, porque eu vivia muito na bolha brasileira.
Trabalhava só com brasileiros, assistia à IPC na época, então realmente eu vivia como se estivesse no Brasil, só que no Japão. Essa adaptação mais profunda da cultura japonesa e da comida veio depois do terceiro ano aqui no Japão.
Portal Mie: O que te inspirou a começar a ensinar japonês para brasileiros?
Nanda: Foi quando eu tive o meu filho. Eu estava bem afastada da comunidade brasileira naquele momento e, quando me vi com um bebê em casa o dia inteiro, senti muita falta de amizade, de conversar com outras pessoas. Aí eu procurei um grupo de mães, acho que eram umas sete mães, e comecei a ter amizade com elas e ajudar no que eu podia.
Foi ali que percebi que ninguém era fluente no japonês. Tinham muitas dúvidas relacionadas às crianças, vacina, qual leite comprar, o que estava escrito nos rótulos, e eu comecei a ajudar da forma que conseguia. Uma dessas mães perguntou se eu não podia dar aula pra ela no Skype, porque ela estava com bebê em casa, eu também estava, e ela não conseguia sair pra continuar os estudos.

Foi aí que, com muita insegurança, comecei a dar aula particular pra algumas mães daquele grupo. Logo depois eu vi um post do SOS Mamães no Japão perguntando se alguma mãe poderia fazer lives de japonês pra ajudar o grupo. Eu fiquei olhando o post esperando alguém se prontificar, mas só via comentários “up, up, up” pro post não morrer. Ninguém aparecia.
Então, num ato de coragem, eu falei: “Ah, eu posso.” Mas na minha cabeça eu pensava: “Meu Deus, tem tantas mulheres que cresceram aqui no Japão, estudaram em escola japonesa e são muito melhores que eu.” Só que eu percebi que capacidade, coragem e perder a vergonha de se expor precisam andar juntas quando você quer ajudar na internet.
Foi assim que comecei no grupo SOS Mamães no Japão, fazendo lives de japonês pra ajudar outras mães. Na verdade, não existiu uma inspiração específica. Eu vi uma necessidade e quis ajudar. E o feedback das pessoas me dava força pra continuar.
Portal Mie: Durante o período em que você fez vídeos para o Portal Mie, o que você aprendeu sobre a comunidade brasileira no Japão e como isso te influencia hoje?
Nanda: O que eu aprendi, na verdade, não foi muito diferente do que eu mesma vivi quando cheguei no Japão. Eu não sabia comprar sabão em pó, não sabia quais eram as marcas boas, não sabia diferenciar shampoo de condicionador. Imagina você entrar numa farmácia e olhar aquele monte de produtos sem entender nada.
Eu dependia muito de outras pessoas pra me mostrar coisas simples do dia a dia. O que era açúcar no mercado japonês, farinha de trigo, essas coisas básicas. Então, quando eu fazia as lives no Portal Mie, durante dois ou três anos, meu objetivo era justamente mostrar essas coisas simples do cotidiano japonês. A diferença entre produtos, o que valia a pena, o que era bom.

E o que eu percebia é que, do outro lado da tela, estavam pessoas iguais a mim anos atrás. Pessoas que precisavam desse tipo de ajuda. Às vezes, só de você falar que um chá é gostoso ou que um produto ajuda em determinada situação, depois você vê as pessoas comentando que compraram aquilo e que ajudou elas. Isso era muito gratificante.
Até hoje eu me sinto muito bem em compartilhar coisas que vou aprendendo, porque algo que talvez não seja relevante pra mim pode resolver um problema importante pra outra pessoa.
Portal Mie: Qual a maior diferença cultural que você percebe entre Brasil e Japão?
Nanda: Eu tenho várias percepções de diferenças culturais e gosto muito de refletir sobre isso. Ultimamente tenho pensado muito nessa ideia do japonês ser frio e do brasileiro ser invasivo. A gente sempre ouve que japonês é frio, europeu é frio, mas frio em que sentido? Será que o brasileiro é caloroso ou será que às vezes ele invade demais o espaço do outro?
Aqui no Japão, por exemplo, você pode frequentar o mesmo konbini durante anos e a pessoa nunca perguntar da sua vida. E acho que isso é o que muitos brasileiros chamam de frieza. Mas, em compensação, tem muitas coisas que eu prefiro que sejam assim. Porque às vezes o brasileiro fala demais, dá opinião onde ninguém pediu.

Aqui no Japão, por exemplo, eu nunca fui questionada se minha filha era realmente minha filha, mesmo ela sendo bem diferente fisicamente de mim. Já no Brasil ouvi várias vezes perguntas como: “Nossa, ela é sua filha mesmo?” ou pitacos sobre criação.
Então eu fico pensando muito nisso. O japonês pode até pecar pela falta, mas o brasileiro muitas vezes peca pelo excesso de opiniões na vida dos outros.
Portal Mie: Tem alguma situação engraçada ou curiosa com o idioma que você viveu?
Nanda: Eu até tenho algumas situações engraçadas, mas a mais engraçada que já ouvi foi de uma seguidora. Ela foi ao hospital e tinha uma tradutora ajudando durante a consulta. Só que, na hora de pagar, a tradutora foi embora porque precisava atender outras pessoas.
Então a japonesa chamou ela e começou a falar sobre o shūshaken. Só que a brasileira não entendia nada e começou a responder: “Não, mora só eu e meu marido.” A comunicação não fluía de jeito nenhum. Até que ela ligou pro marido, que falava japonês, e disse: “A japonesa está falando de um tio chamado Shaken.”
E aí ele explicou que não era “tio Chaken”, era shūshaken, o cartão do estacionamento.
Portal Mie: Que conselho você daria para brasileiros começando a aprender japonês?
Nanda: Depois de dez anos ensinando japonês nas redes sociais, o meu conselho mudou bastante. Antigamente eu falaria pra começar pela gramática, pelo hiragana, por toda essa parte técnica. Mas hoje eu vejo que o brasileiro no Japão não deixa de aprender japonês por falta de material.
Hoje existe conteúdo gratuito em todo lugar. Então eu acredito que o principal é organização. A vida é corrida. Trabalho, filhos, escola, casa… então o maior conselho que dou é: organize sua rotina e determine um horário inegociável pro japonês.

Não deixe pra estudar depois do trabalho, porque você sabe como chega em casa. Se puder, durma mais cedo e acorde mais cedo pra estudar quando estiver descansado. E mesmo que sejam só cinco minutos, faça.
Porque você precisa mostrar pro seu cérebro que agora você é uma pessoa que estuda japonês. Também é importante entender o porquê você quer aprender japonês. O que isso vai mudar na sua vida. Hoje eu vejo que isso é muito mais importante do que técnica.
Portal Mie: Como você equilibra sua identidade brasileira com a vida no Japão?
Nanda: Eu fico um pouco nos dois mundos. Tenho amigas japonesas, meu marido é japonês, minha sogra e meu sogro têm um estilo bem japonês. Mas também tenho meus alunos e minhas amigas brasileiras. E eu consigo transitar nesses dois mundos com muita naturalidade.
Parece até que são duas personalidades diferentes. O jeito que sou com minhas amigas brasileiras não é o mesmo jeito que sou com minhas amigas japonesas. Mas eu consigo enxergar o lado bom dos dois lados.
Das brasileiras eu gosto dessa mesa cheia, das conversas, dos ensinamentos que compartilhamos. E das japonesas eu admiro muito a disciplina, a forma como criam os filhos e como se relacionam com a escola. São realmente dois mundos diferentes.
Portal Mie: O que te dá mais alegria no projeto Nihongando?
Nanda: Com certeza é ver a reação dos alunos quando a gente proporciona algum tipo de experiência diferente. Nós já visitamos lugares vestindo quimono, fomos a castelos, visitamos o Edo Mura e agora vamos subir o Monte Fuji até a quinta estação.
O mais legal é ouvir alguém dizendo: “Estou há tantos anos no Japão e é a primeira vez que estou vestindo um quimono.”
Você percebe o quanto essas experiências mudam a visão da pessoa. Porque uma coisa é passear sozinho ou com a família, outra é viver aquilo junto com pessoas que também estão experimentando tudo pela primeira vez. É muito bonito ver os alunos se abrindo pro novo.

Portal Mie: Quais são seus próximos sonhos para o Nihongando com Nanda?
Nanda: Semana passada me fizeram uma pergunta parecida no Instagram, perguntando se eu queria crescer mais ainda com o Nihongando. E a resposta é a mesma: eu não tenho grandes ambições. Não tenho sonho de dominar o mercado de língua japonesa no Japão nem nada disso.
Eu sou muito mais voltada pras conexões humanas e pras experiências. O Nihongando sou eu. Hoje eu sou professora de japonês, mas não consigo afirmar que daqui cinco anos ainda vou estar fazendo exatamente isso, porque eu mudo muito também.
O foco continua sendo ajudar as pessoas a serem independentes. Mas eu não sei se isso sempre vai acontecer através do japonês da forma como acontece hoje.
Portal Mie: Para finalizar, deixe seus agradecimentos.
Nanda: Primeiramente… ai gente, que difícil essa parte. Primeiramente agradecer a Deus, à minha equipe, às Pris, à Dani, aos meus embaixadores do Nihongando, à minha família que sempre me apoia.
Contatos com Nanda
Facebook: nihongandocomnanda
Instagram: nihongandocomnanda
E também agradecer todo mundo que interage comigo no YouTube e no Instagram, porque isso sempre me dá mais combustível pra continuar.
Reportagem - Clayton Moraes – Fotógrafo & Colunista Fotos – cedidas



