O ex-presidente da Nissan, Carlos Ghosn, afirmou que os pedidos de alguns acionistas por seu retorno à montadora refletem uma profunda insatisfação com anos de planos de recuperação fracassados.
Ele acusou a liderança atual da empresa de desperdiçar valor e perder o rumo desde seu afastamento em 2018.
Em entrevista, Carlos Ghosn declarou que os investidores “já tiveram o suficiente” após três diretores executivos falharem em revitalizar a companhia.
Na reunião anual da Nissan, realizada no dia 23 de junho, o CEO Ivan Espinosa enfrentou a indignação dos acionistas e uma proposta de pelo menos um investidor para trazer de volta o executivo foragido — uma tentativa que fracassou, já que os acionistas apoiaram majoritariamente o conselho.
“É uma reação com muito bom senso“, disse Carlos Ghosn. “Você pode sentir a raiva e a frustração dos acionistas”.
Carlos Ghosn liderou a Nissan por quase duas décadas e vive no Líbano desde que fugiu do Japão no final de 2019.
Na época, ele aguardava julgamento por acusações de má conduta financeira, as quais nega, alegando ser vítima de uma conspiração por parte de executivos da Nissan e autoridades japonesas.
Desempenho financeiro e críticas à gestão
Ele citou a queda no preço das ações da Nissan, a redução nas vendas, o fechamento de fábricas e os cortes de empregos como evidências do que descreveu como falha de gestão.
Carlos Ghosn foi amplamente creditado por salvar a Nissan após o resgate pela Renault em 1999, tornando-se uma figura nacional no Japão, embora seu legado tenha sido manchado por alegações de má conduta financeira.
Em resposta a perguntas sobre os comentários de Carlos Ghosn, a Nissan informou que não comenta “observações especulativas”. A empresa afirmou que está fazendo progresso constante em seu plano de recuperação, obteve lucro operacional no último ano financeiro e continua com forte liquidez.
Outras grandes montadoras, incluindo Volkswagen e Stellantis, também enfrentaram dificuldades nos últimos anos com a transição para a eletrificação e a concorrência de rivais chinesas de baixo custo.
Analistas e fontes internas da Nissan afirmam que Carlos Ghosn focou excessivamente no volume de vendas em vez da lucratividade, deixando a Nissan dependente de preços mais baixos e prejudicando sua marca.
Ivan Espinosa tem focado em aumentar o valor, visando elevar o lucro por veículo, mesmo vendendo menos carros.
O analista James Hong, da Macquarie, comentou sobre a proposta dos acionistas: “Eles apenas sentem falta dos tempos de glória da Nissan. Não tenho certeza se faz muito sentido econômico ou se é uma sugestão realista”, acrescentando que a indústria mudou consideravelmente desde a era de Carlos Ghosn.
“Corre o risco de se tornar uma pequena afiliada de uma empresa maior”, diz Ghosn
Carlos Ghosn afirmou que a Nissan derivou para uma tomada de decisão lenta e uma estratégia excessivamente defensiva, retirando-se de mercados em vez de enfrentar a concorrência crescente. Questionado se consideraria aconselhar a Nissan novamente, ele disse que conselhos não seriam suficientes.
“O único cargo para salvar a empresa é o de CEO”, disse. “Tem que ser alguém que seja realmente o tomador de decisão. Há uma emergência na Nissan e decisões difíceis precisam ser tomadas”.
“Se existe uma pessoa ou um perfil hoje que pode fazer isso acontecer, é o meu”, afirmou. “Não estou dizendo isso porque sou arrogante. Estou dizendo isso por causa dos fatos. Eu já fiz isso uma vez. Conheço a empresa de todos os ângulos”.
Carlos Ghosn alertou que, a menos que a Nissan mude de rumo, corre o risco de se tornar uma pequena afiliada de uma empresa maior, provavelmente chinesa.
Ele comparou a posição da Nissan à crise antes do resgate da Renault em 1999, “mas com menos esperança”.
Carlos Ghosn, que possui cidadania francesa, libanesa e brasileira, disse que se arrependeu de aceitar outro mandato liderando a Renault em 2018 e que deveria ter se aposentado após atingir seus objetivos com a aliança. “Isso foi um grande erro”.
Fonte: JT



