No mercado cambial de Nova York, na quinta-feira (18), fuso local, a moeda japonesa chegou a cair para a casa dos 161 ienes em relação ao dólar. Isso afeta diretamente as remessas dos brasileiros que vivem no Japão.
A recente disparada do dólar frente ao iene tem um culpado principal: a expectativa crescente de que o Federal Reserve (Fed) aumentará as taxas de juros nos EUA antes do final do ano. Esse movimento disparou uma onda global de venda de ienes e compra de dólares, empurrando a moeda japonesa para o seu menor valor em aproximadamente 1 ano e 11 meses (desde julho de 2024).
Vamos comparar a mudança desse cenário entre 2021 e 2026:
| Ano | Câmbio USD/JPY | Câmbio USD/BRL |
| 2021 | ¥110 / USD | R$ 5,40 / USD |
| 2026 | ¥161 / USD | R$ 5,16 / USD (aprox.) |
Exemplo 1: a remessa fixa de ¥100 mil por mês
- Em 2021: ¥100.000 ÷ 110 = US$ 909 → US$ 909 × R$ 5,40 = R$ 4.909
- Em 2026: ¥100.000 ÷ 161 = US$ 621 → US$ 621 × R$ 5,16 = R$ 3.205
- Diferença: -34,7%
Na prática, os mesmos ¥100 mil enviados hoje compram quase 35% menos reais do que compravam em 2021.
A ilusão do aumento salarial
Muitos trabalhadores têm a sensação de que estão ganhando mais porque os salários locais subiram um pouco nos últimos anos. Contudo, a ilusão desaparece na conversão internacional na hora da remessa:
- Em 2021 (salário menor): ¥280.000 = US$ 2.545 = R$ 13.745
- Em 2026 (salário maior): ¥320.000 = US$ 1.988 = R$ 10.259
Mesmo recebendo ¥40.000 a mais por mês no Japão, o valor final convertido para reais é cerca de 25% menor.
Por que o brasileiro no Japão perdeu tanto poder de remessa?
O prejuízo não é culpa exclusiva do iene. O trabalhador brasileiro foi “espremido” por dois fatores simultâneos — é o equivalente a remar contra duas correntezas ao mesmo tempo:
- O iene desvalorizou brutalmente frente ao dólar: saltou de 110 para 161, uma perda de cerca de 32% no seu valor internacional.
- O real não acompanhou essa queda: em 2021, o dólar valia R$ 5,40; em 2026, gira em torno de R$ 5,16. Ou seja, o real ficou relativamente mais forte.
Um dado impressionante
Para que os ¥100.000 enviados hoje rendessem os mesmos R$ 4.909 de 2021, uma de duas coisas teria que acontecer: o dólar no Brasil precisaria subir para perto de R$ 7,90, ou o iene no Japão precisaria se valorizar fortemente, voltando para a faixa de ¥105–¥110 por dólar.
Como nenhuma dessas realidades está no horizonte imediato, o poder de remessa atual figura entre os piores níveis das últimas décadas. É por isso que se tornou comum ouvir nos mercados e comunidades locais que o dinheiro dá para pagar o aluguel e o supermercado no Japão perfeitamente, mas “evapora” na hora de ajudar a família no Brasil. O problema nunca esteve no esforço do trabalho ou no salário em si, mas no valor que o iene passou a ter no cenário global.
Fontes: NHK, JNN, Live Rates e Investing 


